Primeiro a Necessidade, Depois a Estética

Este post é acompanhado por um episódio do podcast “ O Outro Lado do Espaço” Aceda diretamente aqui

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Às vezes é difícil explicar como funciona o meu método. Não porque seja complicado, mas porque as palavras certas ainda não existem para o que faço. Percebi que a forma mais honesta de o apresentar é com um caso concreto, um exemplo real.

Não tenho um estilo próprio, projeto espaços com uma identidade que não é minha, é a dos meus clientes. Cada pessoa é única, cada fase de vida é única, e o espaço deve estar adaptado ao que melhor serve cada um. De acordo com as suas necessidades, energia e estética.

O que faço é perceber primeiro o que o espaço precisa de fazer sentir: Quem o habita. Como vive. Que energias traz de fora para casa. Que tipo de silêncio precisa de encontrar ao chegar. Só depois chego à estética, às cores, aos materiais, às formas.

A estética é a consequência de tudo o que estudei e aprendi antes.

Nota de privacidade: O processo que partilho aqui é inspirado em projectos reais. Os nomes e detalhes foram alterados para salvaguardar a privacidade dos nossos clientes. A lógica que guiou cada decisão de design é completamente real.

O Ponto de Partida: A Casa

Vou chamar-lhes Catarina e Ricardo. Ela é médica, trabalha com doenças do fígado, ele é gestor, e vivem num apartamento T2 em Oeiras, open space de cozinha e sala, as áreas não são muito grandes mas têm uma excelente exposição solar.

Dois ritmos de vida completamente diferentes a habitar o mesmo espaço: a Catarina que chega do trabalho a querer recarregar, em silêncio, o mínimo de iluminação ou então o oposto, vitalidade total, estender o tapete para pilates, cozinhar com música alta. O Ricardo que trabalha três dias por semana em casa, sempre ao computador, com chamadas de vídeo conferencia que precisam de silêncio e organização.

O segundo quarto estava totalmente ocupado por uma cama de casal, para receber visitas da família, sem espaço para o Ricardo ter um escritório. Quando a Catarina queria ver um filme e o Ricardo estava a trabalhar, ia para o quarto com o computador para não incomodar.

A casa em si, paredes brancas, mobiliário de linhas retas, neutros, tudo muito monocromático. Tinha sido decorada com algum cuidado, mas havia algo que não encaixava. Os poucos objectos com cor que a Catarina foi trazendo pareciam fora de lugar e o espaço não estava a servir a vida do casal em harmonia.

"Quero que o espaço me permita realmente abrandar."

— O pedido da Catarina

A Análise Individual - O Que Cada Pessoa Traz para Casa

Antes de pensar em qualquer layout ou material, começo sempre por perceber quem são as pessoas. Não os seus gostos estéticos - isso vem depois. A sua energia, a sua profissão, o tipo de Human Design, o número Gua no Feng Shui. Porque o espaço precisa de servir a pessoa real, não a versão idealizada dela.

A Catarina - o elemento Madeira

Uma médica que trabalha com doenças do fígado carrega o elemento Madeira de forma intensa todos os dias. O fígado é o órgão Madeira por excelência na medicina tradicional chinesa. O objectivo não é eliminar esse elemento, é criar condições para que o excesso se transforme de forma natural.

Leitura de Feng Shui - Ciclo dos 5 Elementos

No ciclo dos cinco elementos, o Fogo reduz a Madeira. Introduzir Fogo no espaço - tons quentes, iluminação quente e direcional, materiais com temperatura quente. Evitar Água: não porque seja negativa, mas porque alimenta a Madeira e o objectivo é reduzir o excesso.

No Human Design, a Catarina é Geradora com ambiente Kitchens. Faz todo o sentido que o open space de cozinha e sala seja a sua área favorita da casa, é onde passa mais tempo, é o espaço multi-funções.

E aqui aconteceu algo que eu acho muito revelador: os poucos objectos com cor que a Catarina já foi comprando eram precisamente amarelos e laranjas. A intuição do corpo, antes de qualquer análise, já estava a pedir o que precisava.

O Ricardo - o ambiente Mountains

A energia profissional do Ricardo - trabalha com crescimento, rentabilidade, resolução de problemas, não tem um elemento a amenizar como no caso da Catarina. Há antes uma necessidade de trazer elemento Terra para estabilizar: enraizar o crescimento, dar-lhe base segura.

No Human Design, o Ricardo é Gerador com ambiente Mountains. Prefere espaços com amplitude visual, sem se sentir fechado. A dúvida que poderia existir sobre onde colocá-lo a trabalhar ficou imediatamente resolvida: a pessoa Mountains precisa de perspectiva, de momentos em solitude, a secretária junto à janela não foi uma escolha estética. Foi uma necessidade energética.


Do Estilo às Decisões

Com esta informação e com a análise dos números Gua de ambos (a Catarina é GUA 3 e o Ricardo GUA 9, o que facilitou muito o trabalho porque partilham as mesmas melhores direcções) desenvolvi dois caminhos estilísticos com previsão de investimento para cada um.

Estilo contemporâneo: base clara com um ligeiro aquecimento do branco da parede, mobiliário moderno em tons de terra e castanho, apontamentos de vermelho e laranja, peças de design com variedade e carácter.

Estilo escandinavo-mediterrâneo: terracota, texturas de cimento bege acinzentado, lacados e brilhos, linhas retas, com uma seleção de arte intencional nessa paleta.

Optaram pelo estilo contemporâneo, onde aproveitavam mais do mobiliário existente.

As Decisões Concretas - O Que Mudou e Porquê

Sala e Cozinha

1.  Backsplash em terracota com textura - Fogo integrado na cozinha de forma permanente e estética o que tambem criava ligação e coerência com o design da sala.

2.  Armário-estante desenhado por medida, no mesmo tom terracota com acabamento gloss, com zonas abertas e fechadas - para arrumação de materiais de pilates, livros, serviço de jantar e display de objectos.

3.  Iluminação estratificada - candeeiros de parede, luz por baixo e dentro dos móveis. Toda quente. Sem frios, sem azuis.

4.  Novos têxteis e objectos alinhados com a atmosfera, incluindo peças de arte, que a Catarina nunca tinha tido em casa e queria sugestões para bom investimento.

Escritório (juntamente como quarto de hóspedes)

1.  Sofá-cama com duas mesas de apoio laterais - mantém o conforto para a família sem sacrificar a função.

2.  Secretária com arrumação generosa ao longo da parede, junto à janela. Profundidade e altura ergonómica. O Ricardo pode trabalhar horas com conforto, e quando a família vem, os monitores ficam guardados num módulo criado para isso.

Quarto do Casal

Refresh de têxteis. Cómoda maior e mais funcional. Uma poltrona em tom de roxo (Fogo suave, do lado da Catarina). Têxteis em castanhos a pensar no Ricardo. Candeeiros de parede para iluminação baixa.

Os candeeiros de cerâmica bojudos merecem uma nota, são peças com um estilo mais rústico, que poderia parecer incongruente num espaço contemporâneo. Mas é exactamente essa disrupção intencional que cria o wow factor. Um espaço demasiado uniforme não nos toca. A natureza é assimétrica, irregular, texturada e é isso que nos nutre.


Conclusão: O que muda não é apenas a estética.

O que muda é o que o espaço faz ao corpo antes da mente perceber porquê.

A Catarina chega de turnos exigentes e o espaço encontra-a onde ela está. O Ricardo trabalha com clareza e privacidade. Quando estão em ritmos diferentes, a casa tem espaço para os dois.

Ouvir o Episódio Completo

Este artigo é uma adaptação do episódio do podcast O Outro Lado do Espaço. O episódio inclui mais detalhe sobre cada etapa do processo e o que isto pode significar para o seu espaço.

Este artigo é uma adaptação do episódio do podcast O Outro Lado do Espaço. O episódio inclui mais detalhe sobre cada etapa do processo e o que isto pode significar para o seu espaço.

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Diana Paiva é designer de espaços sensoriais, cria projectos para casas e lojas em Lisboa.


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