Lisbon Design Week 2026: cinco seleções de uma designer de espaços
Quando vamos a uma exposição de design, vamos para ser surpreendidos e inspirados. Para sair com perguntas novas e referências para aumentar o vocabulário criativo.
A Lisbon Design Week 2026 conseguiu nesta edição trazer muitos espaços inspiradores e memoráveis e apresentar artistas e artesãos emergentes. Os temas que mais que marcaram foram a materialidade, a escala, tecnologia e experiência sensorial aplicadas ao design de interiores e ao design de loja.
Partilho as minhas selecções, não como jornalismo, mas como ponto de vista. É desta forma que navego qualquer evento de design: não pela quantidade, mas pela qualidade do que fica.
Studio Mirante - a melhor descoberta
Pangea, da dupla Colombine Jubert e Laëtitia Rouget: um cruzamento de arte têxtil, instalação, design e performance que convida os visitantes a entrar num universo imersivo construído à volta de pintura em seda e bordado à mão. Peças de cerca de seis metros de altura que funcionam quase como instalações autónomas - sobre identidade, propósito, o corpo, a relação com o sagrado e o metafísico do quotidiano. Um autêntico manifesto.
O que me ficou não foi só a escala. Foi a capacidade destas peças de existirem tanto numa instalação temporária como dentro de uma casa. O têxtil a esta escala faz o que um quadro nunca consegue: ocupa a parede inteiramente, cria presença, textura e emoção sem moldura nem limites físicos previsíveis.
Para além de Pangea, a exposição colectiva CONJUNTO do Studio Mirante reuniu muitos artistas- cerâmica com uma integridade sensorial muito própria, peças com carácter, curadoria actual e moderna. O que me interessa neste tipo de espaço é precisamente o que não se encontra nos resultados de pesquisa do google: criadores emergentes com trabalho real, peças viáveis para projectos residenciais e comerciais.
Os designers de interiores precisam de navegar mais nestes espaços. É nesta arte de identidade — onde materialidade e criatividade coexistem — que também encontramos inspiração estética para criar espaços com carácter para os clientes.
Spectroom - onde a tecnologia serve o sensorial
A Spectroom é um atelier de design e laboratório criativo liderado por Le_Brimet, focado em design generativo e fabricação digital. Trabalha com uma combinação de IA, robótica e sistemas computacionais regenerativos.
Vi soluções que usam materiais orgânicos — celulose, mármore, cortiça — processados através de algoritmos e máquinas de corte que produzem formas e padrões com uma precisão e uma escala que a mão humana não conseguiria replicar. Padrões assimétricos gerados computacionalmente, calibrados pelo designer, que resultam em peças únicas — sem desperdício, com lógica circular.
O que me interessa nisto não é a tecnologia em si. É o que a tecnologia liberta: a capacidade de trabalhar materialidade nobre com uma precisão e uma escala que abre possibilidades inteiramente novas no design de mobiliário, objectos e espaços. A questão não é "tecnologia ou artesão" , é compreender que os recursos actuais servem um propósito, e que aplicados com intenção trazem uma abordagem sensorial e altamente personalizada ao design de espaços.
Made in Situ - luxo com portugalidade
A Made in Situ é um estúdio criado em Lisboa por Noé Duchaufour-Lawrance — designer francês com formação em escultura na École Nationale Supérieure des Arts Appliqués et des Métiers d'Art e em design de mobiliário nos Arts Décoratifs, com obra para Hermès, Ligne Roset, Dior e Baccarat, entre muitos outros.
O que define a Made in Situ é o seu processo: uma pesquisa profunda da materialidade e da territorialidade de Portugal — do Barro Negro de Tondela ao Bunho colhido perto de Santarém, da cortiça do Algarve à pedra das pedreiras de Estremoz. Cada colecção nasce de uma exploração do território, dos seus artesãos e das suas técnicas. O tempo de investigação é parte do produto.
O resultado, que pude ver de perto na sua apresentação na Design Week : o perfeccionismo do toque, do acabamento, da elevação. Peças de luxo no sentido mais honesto do termo: não só pelo preço, mas pela densidade do que carregam. Uma cadeira, uma mesa, um objecto utilitário que existem como resultado de meses de trabalho colaborativo entre o designer e os artesãos de cada região.
É uma linguagem que me interessa cada vez mais trazer para os projectos a ideia de que o espaço português pode ser habitado com elevação.
Maison Intègre - Echo Lamp
A Maison Intègre é um atelier de fundição em bronze fundado por Ambre Jarno, com base no Burkina Faso. Trabalha a técnica ancestral da cera perdida — uma das mais antigas técnicas de fundição de metal, que permanece essencialmente inalterada há milénios — e convida designers contemporâneos a criar peças em colaboração com os artesãos locais.
A peça que me apaixonou foi a Echo Lamp. É uma escultura em duas partes: uma fonte de luz e um reflector, ambos em bronze fundido, que se olham e se respondem, a luz de um incide sobre o outro e volta transformada numa irradiação difusa e quente.
O que me ficou foi a capacidade desta peça de funcionar simultaneamente como escultura de dia e como fonte de luz de noite. As texturas do bronze criam sombras que mudam com a hora e com a posição — é uma peça que o espaço nunca esgota. Com uma linguagem que é simultaneamente refinada e primitiva, celebra qualquer ambiente sem o dominar.
Arquivo Aires Mateus - quando a instalação é o protagonista
O Arquivo Aires Mateus reuniu artesãos, designers e criadores que trabalham cerâmica, pedra, têxtil, cortiça, latoaria, cestaria e marcenaria. Mas o que me ficou da experiência não foram as peças em si. O que me ficou foi a instalação.
Grandes drapeados de tecido ocre profundo a cair dos dois lados do espaço, com a escala da própria arquitectura, em tonalidades que pareciam pertencer ao edifício de sempre. O olhar era inevitavelmente conduzido para os tecidos primeiro - e só depois, dentro deles, para as peças.
A instalação não abafou o trabalho dos artistas, mas foi o convite, criou o cenário que lhes deu escala.
O ARCO também aconteceu durante a mesma semana em Lisboa. Mas para esse, tenho um episódio de podcast inteiramente dedicado - sobre neuroestética e arte, que sai em breve. Fiquem atentos ao Instagram para saber quando está disponível.
Diana Paiva é fundadora e directora criativa do Diana Paiva Studio